Saudades

    Durante a sua existência, o coral perdeu vários dos seus membros. Alguns por decisão própria, porque a vida lhes propunha algo diferente... Outros por decisão da vida, que inexoravelmente cumpre o seu tempo. De todos temos muita saudade!
    Os que por aqui ainda peregrinam, encontramos às vezes e curtimos juntos um tempinho gostoso.
    Os que se foram, consola-nos a fé de que estaremos novamente juntos um dia, continuando na eternidade a cantar para Deus.
    Nossa singela homenagem a seis integrantes queridos que já voltaram para o Pai.



Walter Rossi (abril de 2015)

Mais um de nós volta ao Pai e uma vez mais experimentamos um misto inexplicável de sentimentos... Primeiro, a tristeza e a dor da separação,  que nos priva do convívio com alguém muito querido... Depois, com a reunião de todos nós, junto à família que chora sua dor, um grande sentimento de união amorosa, a consciência de que tanto a alegria como a dor nos torna um, nos une de uma maneira especial... Na certeza da ressurreição, vem então o consolo de que, para nós, é apenas um tempo que nos separa... Para o Walter, na eternidade e fora do tempo, esse período não existe, pois em Deus nos vê e acompanha.
Falar dele em nossa Comunidade é recordar sua intensa atuação, ao longo de muitos anos. Do que a memória permite lembrar, em 1976 ingressou com a Ivanilde na Equipe Nossa Senhora das Graças e posteriormente participaram da Equipe São José. Com a entrada no Movimento Equipe de Casais, inúmeras funções foram assumidas: Coord. Equipe de Matrimônio (1982), Presidência do CPP (1985), Coord. Curso de Noivos (1986), Coord. Pastoral da Comunicação (1989), Membro do Grupo de Canto São Judas (meados dos anos 1990), Membro do CAP e da Equipe de Festas (2004), Coord. Equipe de Festas (2005).

Falar do Walter como companheiro de jornada é me lembrar de alguém enérgico quando necessário e extremamente solidário e amigo. Dono de uma voz grave inconfundível, vai fazer muita falta aos seus companheiros de naipe, os baixos, e a todos nós do coral, pois ele tocou profundamente ao grupo todo, pela pessoa querida que se revelava nos muitos momentos de encontro.
Sem dúvida, o convívio com ele por tão longos anos deixa uma grande lição, de que a vida partilhada em Comunidade tem um valor incalculável. Mas é a sua dedicação à família, aos filhos e netos, que nos mostra claramente a sua face amorosa, que escreve com fogo em nossos corações o que é mais importante nesta vida...
Extremamente apaixonado por sua Ivanilde, não tem conta as vezes em que o vi chama-la de “minha gata”, “gatona”. Ríamos todos, juntos, de como ele amava dizer isso na frente de todos pra deixar a Ivanilde sem graça... Mas o que sempre me tocou o coração nesses momentos era o brilho em seus olhos ao dizer essas palavras. Brilho de quem ama intensamente, de quem é companheiro por uma vida e para a vida toda. Brilho de quem encontrou uma companheira incomparável, de quem nada nem ninguém o iria separar.
O zelo, amor e carinho de seus filhos e netos nos contam como sua via crucis pôde ser aliviada pelas presenças amorosas deles até o final. Saibam vocês, Ivanilde, M. Inês, Sandra, Valtinho, genros, noras e netos, que nada poderia ter aliviado mais todas dores dele do que ter a todos vocês presentes com ele até o fim. Momentos difíceis de enfrentar... Momentos em que muitos por aí, na mesma situação, preferem se ausentar. Mas vocês estiveram firmes, amando e sendo amados... Que coisa tão linda de se fazer e ver!!
Não foi a toa que ele, em quase todo ensaio, pedia a nossa música de número 355... “Somente o amor é como o sol, nas trevas de alguém. O amor é dar abrigo se a tempestade vem. E quando tudo é escuro e a vida é solidão, o amor é que ilumina o coração”.
Os dias que se seguem certamente serão diferentes, com a ausência física de alguém sempre tão presente... Mas a morte não apaga o que se construiu durante a vida, pelo contrário, eterniza! Mais do que nunca ele estará presente entre nós e mais do que nunca unirá vocês. O que o Walter levou da vida é tudo o que deixou de intangível a vocês. Cabe a cada um agora viver cada ensinamento, cada sentimento, cada valor aprendido com ele... E tudo o que ele viveu e ensinou se perpetuará entre vocês e todos os que vierem depois.

O Walter está vivo, bem vivo, em Deus e em nossos corações!


Valdemar Mateus (Agosto/2013)

Pouquíssimos de nós não teria uma história para contar sobre o Valdemar ou uma palavra positiva para dizer a seu respeito.
Ele esteve no Grupo de Canto São Judas desde o seu começo. Conosco conviveu por 21 anos e soube como ninguém ir superando as dificuldades de um tempo tão longo de convívio... Digo como ninguém, porque sei de perto do seu temperamento, das dificuldades divididas. Sei bem o quanto se superou para que, no final, o que sempre vencesse fosse o seu amor por nós, o convívio amoroso e a sua permanência no grupo.

No grupo, fazia parte dos tenores e de uma “casta” criada por ele e por outro Valdemar, chamada “reba”. Brincava muito com o termo, que servia para denominar – no seu dizer – os que não têm voz para cantar e participam do grupo.
Nós somos a reba, querido amigo! Todos nós! E você vai fazer falta...

Não poucas vezes o ouvi dizer “olha, você fique certa de que posso deixar qualquer atividade, mas do coral eu não saio... você vai ter que me aguentar...”.

Assim fosse com todos, querido, esse “aguentar”...

Na paróquia, lembro-me dele muito antes do começo do coral... Lá pelos tempos do padre Zezinho, quando a São Cristóvão ainda era capela de nossa Paróquia. Quanta carreata ajudou a organizar com o Antonio!! E quanta história divertida para contar delas...

De uma simplicidade extrema, ele foi um cavalheiro, talhado pela sua vida árdua de trabalho. Poucas pessoas têm a graça de ter a sua elegância nata e a sua educação, coisas que não foram lapidadas pela universidade nem pela etiqueta social. Foram lapidadas pelo seu viver, pelo seu querer, pelo seu “se fazer”... Para os mais desavisados, poderia parecer que sua maior característica era a teimosia de “espanhol”, como gostava de brincar... Mas eu bem sei que sua maior característica era a doçura de alma, a amizade pura e desinteressada, a fidelidade extrema aos amigos, o respeito aos clientes-amigos que soube conquistar, a gratidão imensa e sincera até por uma palavrinha dada.

Sei que viveu, nas últimas semanas, um pouquinho do que Jesus vivenciou no Horto, antes da crucificação. Sei também que, como Cristo, enfrentou com coragem tudo o que não queria. E tenho a certeza de que, com Jesus, está ressuscitado, na glória do Pai.

Quando se está diante da morte, do inexplicável e imutável, só podemos encontrar luz para esse mistério na morte e ressurreição de Jesus e no imenso amor de Deus para conosco, que se manifesta por meio do outro, por intermédio daqueles que nos cercam.

Ainda estamos consternados e surpresos pela rapidez com que tudo aconteceu... você se foi, levando um pedacinho de nós e deixou uma marca indelével em nossos corações, para sempre.

Sempre nos lembraremos das suas histórias divertidas, da sua preocupação eterna com sua Maria Alice, seu amor e dedicação aos filhos e netos, sua doçura e ternura imensas com a princesinha Marina.

Sempre me lembrarei da sua perseverança em estar entre nós, apesar de...

Felizes somos todos que, deixando de lado os desencontros, às vezes os desamores, sabemos nos unir para continuar partilhando a vida no que ela tem de mais belo e mais lindo: o encontro de almas, a vida dividida nas alegrias e nas tristezas, o carinho do apoio e a gratidão eterna por tudo quanto vivido junto.

 É a lição que você me ensinou, é o pedacinho seu que fica em mim...

Que o Senhor nos ajude a superar sua perda com renovada esperança na vida eterna e que seu exemplo de vida seja por nós honrado e jamais esquecido.

Aquele feixe de luz que liga céu e Terra durante os louvores a Deus, durante as missas, seja o fio que nos une desde sempre e para sempre.
 

Luzia Daibem Arruda (junho/2013)

Assim como une, a vida separa as pessoas. Depois de quase 21 anos de convívio, vivenciamos mais uma triste separação. E foi muito estranho parar para escrever sobre a tão querida Luzia. A mente ainda não se acostumou com a ideia da sua partida. Não sei se por causa da rapidez com que tudo aconteceu ou se porque as coisas que vivenciamos com ela fazem com que esteja muito perto de nós.

Simplicidade, silêncio, suavidade e o constante sim, sempre foram expressões unânimes a seu respeito. A Luzia dizia SIM a tudo e a todos. Somava em tudo o que pudesse. Amava, auxiliando e participando. Essa era a face de Deus que ela nos revelava com sua vida! E n'Ele buscamos consolo e aceitação, próprios da fé.

É verdade que também fomos consolados por ela muitas vezes. De fato, ela ainda nos consola... Aquele jeitinho arteiro, que soltava uma brincadeira onde se esperava seriedade, as coreografias das nossas músicas, o empenho declarado em reunir as pessoas e a alegria assumida em participar nos obrigam a continuar mantendo, entre nós, o seu tom de leveza diante da vida. Precisa ser bom, tem que ser leve, deve ser alegre "por toda minha vida" - frase escrita em nossa caixinha, no ano passado, como ela fez questão de nos dizer, que tanto a ajudou nos momentos mais difíceis dos últimos meses...

Logo após a cirurgia, contou que havia aprendido uma grande lição diante de sua doença e que refletira sobre quatro coisas: é preciso perdoar mais, rezar mais, acolher mais e, especialmente, ser humilde... Justamente ela, nos falando em ser mais humilde...

O seu lugar lá no tablado, que permitia que visse a luz brilhante de uma continha do rosário de Nossa Senhora no altar, a vontade de dar segurança às amigas contraltos e, por último, o empenho em elaborar a festa dos 21 anos do nosso Coral até o derradeiro momento, foram acontecimentos e momentos que se eternizam em nossa memória...

A superação humana de momentos tão exigentes frente à doença e, mesmo depois dela, a vida – a sua vida, que atravessou a morte, deixou em volta tanto amor e carinho da sua família e dos amigos.

A Luzia trazia consigo as sementes de árvores nobres: a gentileza e a prontidão para o serviço do seu Daibem e as palavras sábias e raras, do quase sempre silêncio precioso de dona Maria. Assim, também, deixou nos seus a sua herança mais preciosa, concretamente vivida no momento da dor maior de sua partida: 
  • a certeza do Rafael, de que era uma mulher de Deus e muito amada pelos amigos, que deixava um grande exemplo de vida... 
  • a convicção profunda do Bruno, de que era uma pessoa simples e que todas as providências a serem tomadas naquele momento deveriam fazer valer essa simplicidade. 
  • a fé inabalável da Ana Cecília, de que ela já estava em Deus e que se realizara o plano divino de amor para ela. 
  • a presteza e força do Alexandre, em apoiar e acompanhar o pai e os irmãos na hora difícil. 
  • a fortaleza do Hélio em se manter inabalavelmente forte para consolar os filhos, enquanto resguardava sua dor pela perda da grande companheira, certo de que então ela estava melhor...

A Luzia construiu uma família admirável, deixou tesouros que a traça não corrói...

Sua ausência quer calar a nossa voz, mas, sabemos, é preciso cantar para ficarmos mais perto dela, do mesmo modo que ficou entre nós!

Já não são mais as palavras que valem, mas sim essa gratidão emocionada. Já não serão as datas, as quartas-feiras nos ensaios e os Domingos nas missas, que proporcionarão nosso encontro com ela, mas certamente todos os instantes em que pensarmos nela serão comunhão...

A Lu deixa em nós a certeza de que a vida pode ser sempre leve, alegre, mesmo quando ela for cheia de tribulações...

Para nós, fica a certeza de permanecermos ligados para sempre ao céu.

E, no trecho de uma de suas músicas mais queridas, manifestamos nossa ternura infinita... "Veja como é bom viver unidos, na presença do Senhor, onde a vida se renova, Com a graça recebida, com a paz compartilhada: eis a benção do Senhor, aos que vivem no amor."

Sempre obrigada, amada Luzia.



    Vera Lúcia Pontes Baldin (outubro 2012)


        A Verinha conviveu conosco uns seis anos, aproximadamente. Tempo curto e de tantas coisas difíceis vivenciadas junto! Achegou-se ao grupo quando seu marido passava por uma doença  terrível e pelo seu tratamento... Entre nós, Verinha encontrava alento e coragem para acompanhar o Caetano em seus dias difíceis. Ele partiu e ela testemunhou sua confiança no Pai, vivendo sua tristeza pela partida do companheiro de vida, mas firme na fé, sem revoltas ou queixas.
Sempre alegre, de uma leveza incomum, estava sempre "de bem" com a vida...
         Não muito tempo se passou, talvez uns dois anos no máximo, descobriu-se doente também...
        Vieram as cirurgias, os tratamentos, as dores, os mal-estares... E a Verinha sempre firme, inabalável na esperança e na fé...
Foi para nós instrumento de Deus para a vivência da fraternidade e unidade. Despertou tantos sentimentos amorosos, tanta solidariedade... Quanto nos revesamos para acompanhá-la no tratamento, para fazer uma comida diferente, que driblasse seus enjoos...
Não conheço ninguém que, como ela, estando doente e com dores, se apresentasse com um visual sempre tão caprichado, combinando lenços, echarpes e turbantes... Saboreava cada dia com essa imensa vontade de Viver!
Dela nunca ouvi uma queixa... Tinha medo sim - quem não o teria ou não o terá? - mas sempre que estivesse bem, lá estava conosco cantando...
Assim foi o tempo...
         De lutas, pequenas vitórias, de novas lutas e, finalmente, a volta para o Pai...
Suas últimas palavras, depois de ter cantarolado melodias, foram "Maria, passa na frente"...
Nunca a esqueceremos, querida! 
         Nunca esqueceremos a sua coragem, a sua esperança, a sua leveza diante de tantas dores e sofrimentos. 
A você temos muito que agradecer, pelo tanto de sentimentos nobres que evocou em cada um de nós, pelo quanto nos unimos para lhe cuidar também e por sua confiança no Pai e em nossa Mãe do Céu.
Seu modo de vivenciar as dificuldades da vida são para nós um exemplo que jamais deixará de ser lembrado.
Que nossas vozes se unam - nós aqui, você no Paraiso - para juntos cantarmos e louvarmos o Pai, que tanto amor colocou entre nós.
  Saudade!



Waldemar Cortez (2007)
     
    Durante 15 anos nós cantamos juntos, mas, certamente muitos de nós conhecíamos nosso irmão e amigo Cortez há muito mais tempo do que isso. Tempo suficiente para conhecer a pureza do seu coração, a sinceridade de suas palavras e da sua amizade, o seu jeito próprio de unir e reunir.

    Se ele estivesse no ensaio, quem fechava o portão nunca teve falta de companhia para colocar o cadeado, pois lá estava ele esperando até o último sair e não ficar sozinho...
     Dele temos somente lembranças boas e quase sempre muito divertidas... Quem não se lembra do sapato da Dirce, escondido no alto da janela no Santuário? Ou da Luzia, furiosa, procurando as chaves do carro, lá no casamento na Igreja Santo Antonio?... Quem não se lembra dos capins e mangas encontrados, muito tempo depois, nas bolsas femininas, desavisadamente esquecidas em um canto nas nossas confraternizações? Sumiu chave? Sumiu sapato? Podia contar que ali tinha dedo dele... O espaço é pouco para ficar relembrando as molecagens – no bom sentido, claro – se fôssemos enumerar todas as que nosso querido Cortez fez...
   Isso sem falar daquele arroz especial, sempre tão delicioso, das nossas confraternizações, que ele chegava cedinho para preparar...
    “Marly, você sabe que eu não falto! Se eu não vim, é porque não pude! Agora não tá dando pra ir, mas eu vou sarar logo, e volto rapidinho...”
    E foi assim que ele foi preparando a sua saída...
    Foi indo de mansinho, deixando a “reba” desfalcada, deixando aquele lugarzinho – entre um degrau e outro, no tablado lotado – num espaço que só ele ocupava com  jeitinho, pra dar lugar a outro... Por isso é que mesmo quando o tablado está lotado, tem um vazio enorme ali naquele lugar...
    O Cortez nos fará muita falta, mas, ao longo desse tempo de convivência, aprendemos com ele o que é ser verdadeiro, que sim é sim e não é não, que é preciso juntar sempre, gastar energia para conciliar, chamar outros mais para se juntar a nós...
    Na certeza de que hoje ele está junto ao Pai, louvando e cantando com um coro de anjos, tentamos amenizar nossa saudade, buscando recordar momentos felizes e seguir o seu exemplo de zelar e cuidar para que todos estivéssemos bem e unidos.
Saudade eterna, querido amigo.



Décio Crocce

    O Sr. Décio veio cantar conosco logo após a realização de uma ponte de safena. Logo integrou-se e se tomou de amores pelo grupo. Acho que a melhor definição para a sua pessoa é que era um gentleman, um apaixonado por música e poesia, fotógrafo de prêmio internacional... 
    Loucamente enamorado pela sua Florinda, ela sempre era tema de nossas conversas, a Bonequinha! Lindos os dois!
    Nunca consegui que me chamasse apenas pelo nome, era sempre "D. Marly". Cansei de argumentar que não fazia sentido, pois tinha idade para ser sua filha, mas sempre me respondia que era questão de educação, afinal, eu era a "professora, a regente". Um encanto de pessoa, que fala por si mesmo, pois - grande felicidade! - temos uma fala sua gravada em vídeo.
    O "Coral" São Judas, por Décio Crocce e Décio Crocce, para você. Encante-se! 


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