sexta-feira, 29 de março de 2013

Exercitando o Amor...

Acordei há pouco de um sonho.

Nele eu havia ido buscar algum pertence de uma pessoa querida que havia falecido e lá uma amiga dela disse que tinha uma máquina de costura, se eu  queria... Enquanto eu pensava que eu não costurava, mas a pessoa que me falava sim e que ela verdadeiramente poderia melhor aproveitar a máquina, respondi que ela não precisava devolver, num esforço imenso para não chorar, porque eu nunca tinha visto alguém se desfazer de todas as coisas de outro alguém, mesmo que ele tenha morrido, em apenas três dias, que era o que havia acontecido.

Eu tentava conter em minha voz a grande dor que eu sentia, para dar apenas a informação, porque muitas vezes eu evito esparramar a dor.

Era um sonho, mas confesso que acordei do sonho como quem estava chorando...

Acordada eu pensei... ai, cada coisa! Mas ao pensar nesse tal valor do outro eu imediatamente lembrei da homilia de ontem a noite, que terminou com um insistente convite para que exercitássemos o amor. No modelo de Cristo, isso quer dizer amar a todos e até ao mais difícil, lavar-lhe os pés, ainda que ele seja como Judas, estando em meio aos bons de coração e que não o trairiam, e sendo profundamente consciente do que Judas lhe fazia e preparava... fato culminante e definitivo que não havia começado ali... Lembram que o padre dizia que Judas já vinha arquitetando, sentindo e sofrendo questões dentro dele mesmo que o afastaram de Jesus? Convidou-nos também a evitarmos os distanciamentos...

Grande e exigente exercício nos pede o Amor! Lembrei que durante muito tempo, muito mesmo, eu não fixava meus pensamentos no Cristo maltratado, injustiçado e julgado, porque aquilo me arrasava e eu não conseguia evitar o sentimento da perda de tempo, da nossa  perda de tempo... que ao invés de consumi-lo amando, compartilhando, dialogando, facilitando, era perdido em ofensas e sofrimentos... tudo a ver com o sentimento do sonho, com os três dias em que se apaga o valor de uma vida sem grandes reconhecimentos e sentimentos... sem enxergar o Valor!

Não estou, com isso, questionando a teologia, mas apenas dizendo como penso e sinto ao ver Jesus pregado na cruz. Compreendo gradativamente o que Ele nos ensina através dela – amar até o fim, com todas as consequências – mas não escondo que até hoje, ao olhar para o Seu rosto, não é o sangue que vejo, mas o que vem antes dele com todo sofrimento. Penso que, se eu pudesse ter estado lá, faria de tudo para evitar. O sofrimento é algo que me evoca, me desloca de mim mesma. Me faz ir ao encontro e minimamente tentar fazer alguma coisa para mudar, reverter. É certo que eu tentaria passar a mão com todo meu amor naquele rosto. É certo que eu Lhe diria do quanto O amo. Faria tudo pra ver alivio naquele semblante, olharia dentro dos Seus olhos...

Quantas vezes me vi tocando-O com ternura, porque inevitavelmente pensei no que Ele sentiu e passou... O que sentiu quando seus amigos o deixaram? O que sentia naquele momento tão dolorido seria vivido sozinho? Sei e todos sabemos que Ele era o Filho e que o Pai estava com Ele, e embora esse seja o nosso único e verdadeiro consolo, não tem jeito de evitar esse sentimento queimando em meu peito e em minha mente de que antes da dor, antes do sofrimento, muito pode ser feito...

 No entanto, estamos culturalmente condicionados a sofrer no momento seguinte, durante ou depois da dor, depois que tudo acabou, depois da morte ou da perda. Costumamos chorar o leite derramado. É de estarrecer que tenhamos que viver de novo as casas sendo soterradas nas serras, inúmeros casos de dengue (com toda dor que ela causa), não sei quantos roubos e mortes, infinitos atos corruptos e vejam bem como muda a entonação do jornalista ao dar a noticia seguinte a esses desenganos. Fico pasma como falam da moda da próxima estação com entusiasmo na voz depois de noticiar a morte absurda de uma criança... chamariam isso de profissionalismo... não tenho como evitar a tristeza no coração e pensar naqueles que fazem parte da notícia anterior... isso faz com que passemos da indignação para um torpor, não vivemos conscientemente nem uma coisa nem outra.

 E, se mudássemos o modo de pensar? Se as nossas notícias se atentassem para aqueles segundos antes da tragédia? Se pudéssemos (podemos) aliviar a dor, impedir um acidente, evitar a solidão?

Se desacostumássemos nossos sentidos e saíssemos dessa anestesiada condição? Se o choro dos três dias seguidos, definitivos, fossem choro de partilha e comunhão? Quero dizer, se antecipássemos um pouco nossa ação, talvez alguns minutos, uns dias? Eu estou certa pensando assim? Não sei, é assim que penso e sinto, mas me veio agora uma música na memória:

 Antes de morte e ressurreição de Jesus, Ele na ceia, quis se entregar...

 Antes de morte e ressurreição de Jesus, Ele na ceia, quis se entregar... Antes da morte Ele quis se entregar... se entregou também depois, na cruz, mas quis se entregar desde quando veio. Ou antes disso, quando Deus quem quis se entregar primeiro por meio d’Ele. Ou antes disso, quando criou tudo que foi criado...

 Dá pra fazer algo antes? Experimento que sim e muitos, em diversos lugares e ações o fazem também. Mas para fazer algo antes é preciso querer um bem. E pra querer bem, há que se lembrar que o outro existe, é preciso conseguir VER o outro. Há quem certamente precise lembrar de si mesmo como um outro. Para simplificar, somos alguém que importa, sempre! E precisamos nos salvar da dor e sofrimento que podem ser evitados e, se não for possível, ao menos resgatar o direito a uma morte digna, cheia de amor e amparo.

 A música nos lembra que Ele ressuscitará. Será que é isso? Será que isso nos conforma os ouvidos pra engolir a morte? Não é possível! Pois quem já vivenciou a morte de um ente muito querido bem sabe quanto tempo leva para começar a sentir e respirar a possibilidade da ressurreição. Primeiro dói muito. As vezes dói muito tempo também. Então façamos um exercício...

 Pensar nós como pessoas, nos outros em mim - que existem, que sentem, que sofrem, que amam, que tem suas fragilidades. O Outro, tão imperfeito, vive alguma coisa que é só dele em seu próprio mundo e, por mais que eu o saiba, não há como conhecer totalmente. Por isso aqueles minutinhos antes são tão importantes. Antes de falar... vou fazer bem? Antes de julgar... vou feri-lo? Antes de ligar... esse é o momento? Antes de contar algo triste e difícil... como digo pra não causar ainda mais sofrimento?

 Quando ligo para as pessoas me condicionei a perguntar se elas estão ocupadas. Não me custa lembrar que o coração tem porta. Que não haverá unidade se o outro não estiver me ouvindo, que não tenho razão para falar por falar... quando procuro alguém é pra compartilhar seja lá o que for. Seja lá o que for, não! Alegria ou tristeza tem seus modos de expor.

 Ontem, durante a missa eu vi e sei que outros também viram a Marly cuidando ao mesmo tempo das músicas; da sintonia dela com o Chico e a Luci; da caixa de som que parecia falhar no retorno e ela, depois de pedir ajuda e não terem conseguido resolver arrastou a caixa com a ajuda insuficiente de uma ou duas mãos; de que entrássemos junto com ela nas músicas, da sincronicidade com o Padre e a equipe de Liturgia nas encenações do Lava-pés e da Partilha do Pão... do ritmo mais lento que cantamos em alguns momentos e ela nos acelerou com os gestos e com o pandeiro... ufa, já cansei, mas ela faz isso sempre e há anos com o carisma e dedicação que não preciso dizer. Enquanto eles - Marly, Chico e Luci – harmonizam a música, nós os seguimos e a igreja experimenta conosco aquelas sensações mais lindas que a música toca no espírito. Mas não era só isso que ela cuidava. Ela sabia que eu venho cansada de um período difícil e me olhou por duas vezes quase me dizendo pra seguir confiante. Olhou pra um dos homens o sorriu incentivando-o também. Cuidou de uma senhorinha querida que parecia não estar bem e vários a cuidaram também. Cuidou de algo maior que eu não sei dizer, mas sei que ela estava feito galinha choca – vocês a conhecem melhor do que eu. Meu Deus, há tanto que sabemos sobre o outro. Há tanto que não sabem sobre mim. O outro do outro.

 Então eu penso nela (Marly). Ela nesse instante é o outro... Quando a missa termina, sei do quanto ela é solicitada ou termina cansada e não me faço questão. Não faço questão de mim porque o outro importante e que merece cuidado e descanso é ele. Penso na infinidade de sentimentos que ela viveu em um tempo tão curto e intenso, atenta ou tentando estar atenta a todo mundo e compreendo... Sei o quanto ela os ama e se importa com cada um e quase leio o olhar ainda de angustia e preocupação com cada um e com todas situações. Muitas vezes me despeço, outras não. Poucas vezes ali converso. Ali é lugar dela amar a cada um. Ali ela se aflige porque tem cada pessoa sob sua proteção. Ali ela esquece que é gente comum e age em outra dimensão. Ali suas falhas humanas ganham dimensões divinas – tenho certeza que tantos já viram quem se reergueu por um sorriso que ela deu, ou se pós no caminho por alguma bronca. Falo dela porque fica mais fácil de ver e compreender o que o outro é. Quem é esse outro e tudo que ele é por dentro.

 Mas poderia falar das mulheres ao meu lado. Do carinho da Neide conosco. Mulher discreta e admirável que canta lindamente e que, enquanto canta cuida do Osvaldo, que enquanto canta cuida do Fernando lá fora... Da falta imensa que faz a Célia com suas bagunças e do quanto ela é amorosa, além disso penso na vida ela rege em sua família como música linda que só ela compõe em Deus. Da Cida que algumas vezes ri das farras do Sidnei e outras o olha cuidando e protegendo também, e cuida da tia Ivone, tudo isso enquanto canta. Da Arlene que lá de baixo manda o aceno na hora do abraço da Paz fazendo festa bonita... a alegria do Mantovani, agora todo magrelo e disposto, depois de tudo que ele atravessou e que eu nem sei contar. Acho a coisa mais doce desse mundo quando ele e a Marly se unem numa combinação de vozes que só eles podem fazer, espontaneamente, como expressão de amor a Deus...

 Tem ainda o Sr. Américo, meu melhor vizinho, sempre gentil, sempre brincando, sempre querido. Compartilha as alegrias pelas bagunças da filha, fica de olho se já vi qual é a música a seguir porque ele ganha o folheto que vem com os números delas antes da gente ler na plaquinha que a Ana nos mostra. A Ana é pessoa intrigante, não acham? Que simplicidade mais linda, que disponibilidade, que carinho... isso seria possível sem o companheirismo silencioso do Roberto, seu esposo?... que querido, não é? É! Coisa que vemos antes de que alguém precise dizer! E o Sidnei que se beija feliz da vida quando canta bonito (risos), o Lopes que tenta com tudo que pode compensar no canto as faltas dos ensaios em virtude do trabalho que tem... a Saletinha, sua esposa que nos trata com carinho e gentileza dupla, fazendo o presente nesses dias, acreditam? É! É assim! Tudo isso enquanto se canta, antes e depois de cantar! E o semblante do Chico quando fala dos netos, a fisionomia da Luci quando acha mesmo bonito o que a gente cantou... direta ou indiretamente todos manifestam seu amor no mundo, além, muito além dos limites que se tem...

Tem o Moisés que vem pro ensaio sozinho, mas que a gente olha e vê a Maria com ele. Que lindo! O seu Valdemar, querido, passa algumas vezes pela casa da minha mãe à serviço de outra pessoa e nunca deixa de me dizer o que viu, demonstrando a mim esse querer bem... não é bonito isso? Sim, meu Deus, é! A Isabelzinha, nunca vi como não pára. Não dou conta também de descrever tudo quanto ela cuida... ela não me conta, mas quando a olho, posso ver! E a Carmo, que fica pondo calma com os olhos no coração da gente?

Tem gente que mal me vê e que nem sempre vejo também, mas eu os vejo empenhados na música, cantam com todo primor. Alguns são mais próximos de outros, e com eles repartem mais suas vidas. É só isso e pronto. Todos tem seu valor! Tem quem se coloca mais fechado e o coração apenas imagina que coração guardado é lugar sagrado. Respeito já é forma de amor.

 Quase todos, homens e mulheres, fazem questão de ao menos dar o aceno, o cumprimento e mesmo sabendo as lutas de cada um, vê-se o empenho em serem Um. São esses outros. Sei que não mencionei tanta coisa e toda gente, peço desculpas, mas só queria exemplificar a sequencia das coisas e tudo que poderia vir antes de qualquer sofrimento. Tem tanto tesouro disponível pra ser percebido agora, aqui mesmo, fechando os olhos a gente pode rever tanta coisa boa feita pra gente!

 Essa é a ceia do Pai, vinde todos, tomai o alimento eterno... hoje desejo saciar vossa fome de paz...

 Como ensinou uma linda amiga já falecida, isso de acariciar o rosto na dor, de dar abraço e beijo, de telefonar pra saber, de aquietar ao invés de falar, de tentar conhecer ou tentar supor com amor humano antes de julgar, de se colocar no lugar, pode não livrar da morte (me disse isso sabendo que estava perto da sua hora de partir), mas alivia a vida... dá sentido e valor...

 Hoje, sexta-feira Santa, já não tem mais jeito. O Cristo está morto. Com tudo o que isso pode ensinar e dizer. Pra quem segue a fé católica, sente-se o peso e a dor.

 Agora é silencio, na Terra e no Céu
Silencio que canta louvores a Deus 

Tamanha eloquência nas vozes não há
Escuta o silencio, pois Deus nele está... ooooo, oo, oo... oo...

Deixemos deitar tudo! Tudo que tentamos. Tudo que fracassamos, os arrependimentos.

Mas que seja límpido o sentimento pulsando no peito... que ressuscite n’Ele e com Ele todo nosso amor e que seja um amor vivo, capaz de evitar a dor do mundo, nem que seja do vizinho do  banco do coral, daquele que atravessar nosso pequeno mundo, do que encontramos não porque queremos, mas porque Ele quer.

 Antecipa um pouquinho de amor em nossos pensamentos e em nossas ações. Que nossos sentimentos sejam bons. Descansa-nos a alma. Dá-nos a calma e deixa-nos cuidar de Você e desse Amor tão lindo, razão da nossa Vida.
Não fique sozinho hoje, Jesus querido! Que sua morte não seja solitária e vã!
Façamos sim o exercício do Amor! Ele nos torna melhores do que somos!

 E como diria o poeta:

“Seria apenas mais uma história, se não tivesse tocado a alma.” – Caio Fernando Abreu
Por tudo de lindo que colocou em meu viver, que queria evitar ao menos um pouco a Sua dor...

Eu quisera, Jesus adorado,
seu sacrário de amor rodear...

Beijo em seus corações, queridos!
Claudia

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