terça-feira, 28 de agosto de 2012

Ah... o Aleluia!

         Eu estava planejando falar sobre o que se segue amanhã, mas, pensando melhor, achei bom estruturar o que somente tinha planejado dizer e escrever, pois assim a chance de me fazer entender melhor é maior.
         
          Durante alguns anos de minha vida, exerci a profissão de professora.
Comecei a dar aulas assim que terminei o Magistério, com 18 anos... (Sabiam que fui professora do Falcone, que já cantou conosco no coral? kkk... To véia! Ele já tem filha com uns 17 anos...).
A primeira classe que assumi pra valer, como minha, foi uma primeira série, numa escola de periferia... As crianças, a maioria filhos de domésticas e trabalhadores braçais, chegavam sem saber cor, sem coordenação motora fina, que dirá conhecendo letras ou sabendo contar...
Do alto dos meus 18 anos, podem imaginar como isso tudo era desafiador para mim... Tinha acabado de terminar o colegial (o Magistério nessa época era feito em três anos) e já assumia uma classe para alfabetizar...
Nem podem imaginar que coisa incrível é ver uma criança que não sabe o que é cor, que nunca pegara em lápis, começar a ir adquirindo motricidade fina, começar a reconhecer o que é amarelo, o que é vermelho e saber diferenciar o verde do azul... E, é claro, no meio delas havia uma que já sabia tudo isso, que a mãe tinha tido tempo em casa para ensinar. Para esta, fazer pintura em limites preestabelecidos era uma “baba”. Tirava de letra, com perfeição. Mas as outras... Tinha na classe também, um menino que, aparentemente, tinha hidrocefalia... Inteligência limítrofe... Mas – não posso me lembrar sem me emocionar profundamente... – a dedicação deste menino era uma coisa impressionante... Dotado de uma alegria contagiante, esforçava-se como ninguém em pintar o que era pedido – ainda posso ver a linguinha de fora e muitas vezes a saliva pingando... E quando vinha me trazer o trabalho, seus olhinhos brilhavam de felicidade... “D. Marly, não ficou lindo?” (professora naquela escola não era “tia”...).
Obviamente, meus olhos podiam ver que não estava lindo, porque os limites estavam transgredidos, a margem a ser respeitada tinha sido “engolida” e nem sempre a cor estava correta... Mas minha alma dizia que sim, estava lindo...
Ficava inconformada, porque tinha que dar uma “nota” ou um “conceito” avaliativo, pois o desenho serviria de avaliação... Por que eu tinha que dar 10 pra menininha que tinha feito de olhos fechados e à perfeição a sua tarefa e, no máximo, 5 para aquele menininho que tinha se entregado com todo o seu ser naquela tarefa?
Por tinha que valorizar o desempenho em detrimento do empenho?
Na orientação da Coordenadora, aquelas eram as regras...
Eu nunca gostei desse tipo de regra...
Outra coisa que aprendi rápido, dando aulas, é que se não houver um desafio lançado, para superar obstáculos com motivação lúdica, a aula fica chata para a criança, enfadonha, e elas ficam logo inquietas... Quer ver todo mundo se empenhando? Lance um desafio... Que ele não seja muito fácil de vencer, mas que tenha a medida certa para as potencialidades da idade e maturidade da criança... Uau! A coisa pega fogo!
Uma vez precisava falar de meios de comunicação para uma quarta série. Eu já trabalhava em escola particular e o desafio acabou se transformando em um jornal televisivo. As crianças criaram notícias, entrevistaram pessoas e depois leram o que tinham produzido para uma câmera que eu – precariamente – segurava, tentando não balançar muito, porque ela era pesada pra caramba... Para quem duvida, tenho a fita de vídeo guardada até hoje...
Enquanto meu vídeo cassete funcionou, eu ainda assistia de vez em quando...
O resultado? Lindo, lindo, lindo!
Tinha a técnica de um telejornal global? Óbvio que não!
As crianças ficaram espontâneas lendo, no vídeo? Não! Até porque, liam de uma cartolina escondida embaixo da câmera... kkk
Mas ficou linnnnndooo! Emocionante!!!
E quem viu amou!
A Coordenadora chorou! Levou para a Diretora ver...
Daquela aparente bagunça das crianças circulando, entrevistando, escrevendo à sua moda uma notícia fictícia, gaguejando, errando, muitas inibidas frente à câmera, produzimos juntos um telejornal, compatível ao que elas podiam produzir... Se eu tivesse parado na ideia de que não ia ficar natural, que as imagens iam ficar tremidas pela minha inexperiência ou por todas as outras razões que o “bom senso” dita, jamais teria um documento tão valioso quanto esse: crianças de 9 e 10 anos como “jornalistas”...
Lembro-me de tudo isso e vibro de emoção. Naqueles momentos, embora fosse a professora, virei criança com as crianças... Já se passaram no mínimo 18 anos e o sentimento que compartilhei com os “baixinhos” ainda está bem gravado aqui no meu coração: alegria, cumplicidade, às vezes irritação – de ambas as partes – porque as coisas não podiam ser feitas “de qualquer jeito”... Mas ao término, foi a glória...
***
Especialmente nos grandes teatros europeus, o Allelujah (o 42º movimento do oratório O Messiah, de Handel) é uma música ouvida em pé, tal o respeito da plateia pela mensagem que a música traz e pela majestade da execução. A Tradição conta que, na primeira apresentação da peça, em Londres, o rei da Inglaterra, George II, estava presente. Quando o coral começou a entoar os primeiros cantos do "Hallelujah", o rei, impressionado e encantado com a  a beleza daquela oração, levantou-se de sua poltrona. Quando viram que o rei estava em pé, toda a plateia ergueu-se (ninguém permanece sentado na presença do rei em pé, isso é protocolo real), daí o costume de os ouvintes permanecerem em pé durante a execução da ária mais famosa de todos os oratórios.
 ***
 
E nós nos "atrevemos" a cantar o Allelujah!
Certamente, uma blasfêmia para as plateias europeias ou para quem entende de verdade de música... Quem sabe, também, para a plateia seleta, em pleno Teatro Municipal, lá em 2005...
 É verdade que daquela vez o fizemos melhor... Talvez, desta vez, nem todos tenhamos feito bem a nossa parte. Nem todos tenhamos sido assíduos aos ensaios. Nem todos tenhamos ouvido e ensaiado nossa parte em casa. Nem todos tenhamos estado presentes aos ensaios da semana. Talvez, muitos "talvezes"... 
 
Só tenho a dizer que, passado tanto tempo dos meus primeiros anos de professora, eu ainda não gosto das regras que determinam que o que se deve aplaudir é o perfeito desempenho em detrimento do empenho e de buscar alcançar o potencial máximo que se pode chegar com as limitações a que se está sujeito.
Meus olhos de professora ainda continuam vendo o esforço, ainda continuo achando que os desafios fazem com que as pessoas se movam para dar o seu melhor, especialmente se eles forem lúdicos e em partilha.
E meus olhos e minha alma que ainda têm um “quê” de criança, adoram um desafio possível de realizar... 
Mesmo sem levar em consideração o que foi dito pelas pessoas na sexta, que talvez tenham falado por delicadeza ou mesmo educação - ouvir das minhas filhas que o Aleluia foi emocionante, saber que choraram quando nos viram cantando e ouvir, no sábado, meu filho dizer com emoção que o coral está lindo, é tudo o que me basta.
 
Fico com a força da prece, pois é ela que prevalece acima de qualquer outra coisa.
Não me queira mal, querida Luci, mas nós podemos cantar o Aleluia. E podemos fazer isso de novo e de novo – e melhor.
Adrenalina, na dose certa, rejuvenesce o coração...
 
Beijokas a todos!


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