terça-feira, 8 de maio de 2012

Família: Utopia?

Recebi um texto da Silvia, que me fez pensar e com isso rememorar e refletir... Coloco ele logo ali embaixo, com um vídeo delicioso de assistir, com o Pe. Zezinho cantando Utopia e contando histórias do seu tempo de criança. Imperdível!
Quanto a mim, compartilho com vocês trechos de um texto escrito aos meus familiares após a minha viagem a Portugal, recordando as bases de nossa família, visivelmente alicerçada em meu avô José.

   "Depois de uns dias, deixando todos os sentimentos que fluíram durante nossa viagem um pouquinho no molho, volto para escrever sobre ela, fechando um ciclo de grandes e significativas vivências... Compartilho-as com vocês.
   (...)
  Viajar para Portugal trouxe uma grande consciência de como a vida vivida com dignidade e simplicidade pode gerar grandes frutos, descendência íntegra e sedimentar valores fundamentais, alicerçados em rocha firme e inabalável. Nosso avô teve uma vida dura, difícil e tudo o que me lembro dele é permeado por extrema doçura, gentileza, afabilidade, hospitalidade...
    A vida dura não o endureceu...
    A vida rude não o embruteceu... 
    A perda de três filhos não o amargou nem tirou sua fé...
    Os bens e o poder aquisitivo que possuía não o afastaram da vida simples do sítio.
    Numa época em que se tinha filhos para labutar na roça e ajudar na sobrevivência, teve grande visão e abnegação ao enviar os filhos para estudar... Queria para eles uma vida diferente... Aos filhos mais velhos, penso eu, a distância dos pais deve ter sido um grande peso, pela dor da ausência materna e paterna, mas acho que a vida se incumbiu de mostrar que, verdadeiramente o que o pai desejava era oferecer melhores oportunidades de vida... Assim foi.
     Finalmente, a viagem me proporcionou, além do encontro com as raízes “portugas”, a delicadeza do convívio com meu pai, meu irmão e minha filha. Nos divertimos muito, demos muita risada juntos, vivemos situações hilárias mesmo. Vivemos também profundas emoções, na descoberta da Quinta [dos Freixos, onde meu avô nasceu], no encontro com as portuguesas [que nos deram as informações sobre os parentes] e com a prima Marília.
    Visivelmente, nós quatro funcionamos de maneiras muito distintas, temos personalidades completamente diferentes, mas partilhamos um mesmo sentimento e do amor que permeou o tempo todo o nosso encontro, conseguimos ter uma viagem tranquila, sem estresses ou tensões. Cada um cedeu um tanto, cedeu a medida que podia, para que tudo corresse bem.
    (...)
    Quanto aos meus devaneios infantis com Portugal (ah, Portugal!), digo que é mesmo um lugar lindo, encantador, cheio de cantinhos e muitas cidadezinhas pequenas, cheias de lembranças e ruinas de um longo tempo passado.
    Já estamos aqui há cinco dias e eu ainda sonho todas as noites que estou lá...
   Deve ser tudo fruto de tantos sentimentos experimentados.
   A sensação é de saudade...
   Saudade de um querido, que se chama vovô José."
 
 

***

FAMILIA
(Trechos do livro "O Arroz de Palma", de Francisco Azevedo).
 
 
"Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema... Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir...
Mas a vida... sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite.
O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele, o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente...
Já estão aí? Todos? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.
Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar, tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.
Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto: é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido.
Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.
O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini, Família à Belle Manière; Família ao Molho Pardo (em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria). Família é afinidade, é à Moda da Casa. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.
Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seria assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha.
Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.
Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel.
Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro.
Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete."

 

Um comentário:

  1. Muuuuito lindo!... e emocionante... gracias por tudo isso!

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