sábado, 31 de março de 2012

A voz do silêncio

A missa deste domingo, Missa de Ramos, traz Isaías 50,4-7 (primeira leitura); Filipenses 2,6-11 (segunda leitura) e Marcos 15,1-39 (no Evangelho). Gostei muito de um texto gerado pelo Pe. Paulo Cezar Mazzi, que transcrevo aqui, para nossa reflexão nesta Semana Santa.

            O Evangelho da Paixão de Jesus nos coloca diante de dois silêncios: o silêncio de Jesus e o silêncio de Deus. Jesus, durante todo o processo do seu julgamento, da sua condenação e da sua crucificação, permanece em silêncio (v.5). O único momento em que ele rompe seu silêncio é para expressar a dor que sente pelo silêncio do Pai, silêncio entendido por Jesus, naquele momento, como sinônimo de abandono (v.34).
            Chega um momento em nossa vida em que o silêncio se impõe. O silêncio se impõe porque as repostas que nós tínhamos para as perguntas que a vida nos colocava não respondem mais, porque as perguntas são novas. O silêncio se impõe porque a dor e o sofrimento precisam ser respeitados e não aceitam qualquer explicação, qualquer resposta.
            Quando vemos alguém sofrer, nos apressamos logo em fazer os nossos julgamentos e dar as nossas explicações. Nos esquecemos do que disse o profeta Isaías, na primeira leitura: antes de levarmos uma palavra de conforto à pessoa abatida, precisamos silenciar diante da dor dessa pessoa, abrir os ouvidos e esperar até que Deus nos fale, a partir do sofrimento dela (cf. Is 50,4). Quando nos apressamos em dizer qualquer coisa a quem está sofrendo, corremos o risco de ferir ainda mais a pessoa que já está machucada. Há muito sofrimento à nossa volta. Justamente por isso, há muita necessidade de silêncio, até que nos seja dada uma palavra de conforto para ser levada à pessoa abatida pelo sofrimento. 
            Entre o silêncio do Filho e o silêncio do Pai, está o barulho dos homens. O evangelho nos fala do barulho de Pilatos, homem preso nas armadilhas do seu próprio poder e preso também na obrigação de querer agradar a multidão (cf. Mc 15,2.4.9.12.14.15). Como Pilatos, quando tiramos da nossa vida o necessário silêncio, nos distanciamos da voz da nossa consciência, tomamos decisões erradas e nos tornamos escravos das expectativas das outras pessoas.
            O evangelho também nos fala do barulho da multidão, que nada queria ouvir; apenas gritar: Crucifica-o!”(Mc 15,13.14). Como essa multidão, nós temos nos tornado pessoas agressivas, intolerantes, sem paciência. Se nós cultivássemos um tempo diário de silêncio, a desordem que muitas vezes se forma dentro de nós seria arrumada, colocada em ordem, e não precisaria ser expressa em nossas palavras e atitudes.
            Por fim, o evangelho nos fala do barulho dos que passavam diante da cruz e dos que estavam crucificados com Jesus, insultando-o e zombando dele: “Salva-te a ti mesmo, descendo da cruz!... Desça agora da cruz, para que vejamos e acreditemos!” (Mc 15,30.32). Existe em cada um de nós um protesto natural, instintivo, diante do sofrimento. Contra ele, nós gritamos e nos revoltamos. Porém, apesar disso convém fazer silêncio também, e nos perguntar quais atitudes nossas estão colocando os outros ou a nós mesmos numa cruz. É sempre mais fácil acusarmos Deus de não fazer nada em relação ao sofrimento que existe no mundo, do que pararmos para refletir sobre o quê estamos fazendo neste sentido...
            No alto da cruz, ecoava nos ouvidos de Jesus o barulho das palavras agressoras de Pilatos, da multidão e dos que passavam por ali. Mas a maior dor do Filho, na hora da cruz, não vinha das palavras dos homens e sim do silêncio do Pai. Assim como Jesus, eu também experimento muitas vezes o silêncio do Deus, um silêncio que não vem porque Deus não existe; vem porque a minha imagem de Deus está distorcida e precisa ser refeita através da dor do silêncio. A hora em que eu me sinto abandonado por Deus é a hora em que eu nada mais tenho a fazer, senão me abandonar nos braços daquele que ainda posso chamar de Meu Deus, como fez Jesus (cf. Mc 15,34). 
            Enquanto no alto da cruz acontecia o silêncio do Pai diante do sofrimento e da morte de seu Filho, aos pés da cruz acontecia o nascimento da fé no coração de um homem pagão: “Quando o oficial do exército, que estava bem em frente dele, viu como Jesus havia expirado, disse: “Na verdade, este homem era Filho de Deus!””(Mc 15,39). O silêncio de Deus é necessário para que o meu coração reencontre a fé. Assim também, a minha maneira de lidar com o silêncio de Deus em minha vida pode levar outras pessoas a se abrirem para a fé. 
            Que você vivencie profundamente esta Semana Santa! 
                                                                                       



506- A voz do silêncio

Agora é silêncio na Terra e no Céu,
silêncio que canta louvores a Deus.
A cruz é silêncio Altar de fervor,
na paz tão imersa, abismo de amor.

Silêncio que prega sermão redentor,
sem sons, sem palavras, só luz do Senhor!
Tamanha eloquência nas vozes não há,
escuta o silêncio, pois Deus nele está.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...