sábado, 5 de novembro de 2011

Regência

Como havia dito ontem, recebi dois emails após o texto do dia 29, comentando sobre o Dia de São Judas.
Este veio da Cláudia, referindo-se à regência. Compartilho-o com vocês, pois não por poucas vezes, como bem disse a Luci, nestes 19 anos, enfrento o dilema de que não tenho conseguido resolver bem como fazer para exercer o papel que vocês me delegaram, que é coordenar o grupo e fazer todos os acertos necessários daquilo que não está legal nas músicas, nas vozes, sem que vocês se magoem comigo por eu ter falado. O que acontece, quase sempre, é que fico constrangida de ter que dizer a um que não é assim que canta tal melodia, fico constrangida de pedir que o volume dos instrumentos sejam abaixados, fico constrangida de pedir que vocês troquem de lugar, fico constrangida de pedir que alguém mude um pouquinho a sua maneira de cantar para que tudo fique ainda mais bonito... Fico constrangida com tudo isso, porque vocês me dizem com a boca que eu preciso fazer essas coisas, mas quando eu faço, sinto de imediato que aquilo que fiz foi tomado como algo pessoal, sinto que alguns se sentem ofendidos, como se fosse implicância minha ou como se eu gostasse mais de uns do que de outros... então, realmente fico sem saber como fazer. Melhor dizendo, eu sei bem como fazer, mas me esforço imensamente para que minhas atitudes não firam ao amor que sinto por vocês.
No entanto, se existe alguma possibilidade de lidarmos melhor com as dificuldades, precisamos ter coragem de expressar visando conquistar mais paz e bem. Para nós e para aqueles que nos cercam! É o que faço compartilhando tudo isso com vocês, esses dois textos e os meus sentimentos. Confio que possamos crescer juntos cada vez mais.
O texto escrito pela Cláudia me ajudou a ter clareza de algumas coisas e serviu para aprofundar outras também:

Muito querida Marly,
Pela manhã eu comecei a escrever um e-mail para você, falando algo que penso sobre a regência, mas acabei deixando de terminar. Agora à tarde, lendo novamente seu texto no blog, resolvi dizer um pouquinho do que penso.
Eu penso muitas coisas quando vejo alguém diante de um grupo. Já estive conduzindo grupos de diferentes idades e lugares e do muito que vivenciei com eles, o comum em cada situação é o quanto conduzir pessoas é exigente.
Exige de quem estiver à frente do grupo uma presença humana para ver, perceber, atender, cuidar de dar um mesmo tom a tudo que se passa... No seu caso, há muito mais... cuida do som, do tempo, da música, da harmonia, do ritmo, das pausas, das vozes diferentes, dos desafinos, dos instrumentos, para que toquem sincronicamente, de entrarmos no tempo certo, de atender à homilia do dia, de dar suporte à missa...
Isso me faz pensar em você ali, cuidando que estejamos atentos e uníssonos e quantas vezes isso não acontece e, você, com as mãos aceleradas tenta fazer com que cantemos uma só canção... Logo volta a sorrir e assim terminamos o canto... Isso acontece muitas vezes; outras, você é inspirada a mudar a música de acordo com a homilia e nós ficamos apreensivos com a mudança em cima da hora, como se em todas as músicas programadas e seguidas fielmente, acertássemos, mas a verdade é que isso também não acontece... Acontece de errarmos com músicas programadas e com as inesperadas e você, não escolhe fixar sua atenção no erro, tão logo estejamos em unidade, volta a sorrir outra vez...
Há ainda a historia do Amém velho, do Amém novo e nós criamos várias vezes alguns améns diferentes, para minha surpresa você ri da cara da gente e com a gente...
Você não guarda os números das músicas, mas ganhou um cérebro auxiliar (a Ana, sempre tão pronta e precisa) que sabe um a um de cor (de coração) e pra mim isso é amor de Deus respondendo ao seu dom ofertado assim, de coração também!
Você não guarda as letras das músicas todas, mas é a pessoa mais feliz do mundo porque a gente canta com você e eu já ouvi de muitas pessoas do grupo, o poder do seu carisma e posso dizer sobre mim mesma. Vejo o quanto a música está em você como oração e carinho a Deus, vejo que canta com a alma e o corpo, procurando nos manter unidos nessa mesma intenção.
Eu tive à minha frente uma outra regente, delicadíssima, discretíssima, por quem tenho um amor pra toda vida, quem a conhecer (Aniceh Farah) vai entender porque estou dizendo isso. Você tem uma postura completamente diferente, sei que não tem formação específica para o que faz e o faz por imenso amor... No entanto, sua regência revela outros dons, visíveis pelo quanto se dedica, pelo como quer bem às pessoas, por ser capaz de fazer fluir música/oração com compromisso e alegria, sinto grande admiração! Canta lindamente, tem a voz e a audição especialíssimos e ainda assim acolhe o que somos e como somos, no meu caso em que me reconheço com tantos limites, como se fôssemos tudo de bom...
Mas antes de todas essas coisas eu particularmente gostaria de mencionar sobre o poder e a submissão. Brinquei com você um dia, dizendo que para fazer parte do coral eu estava me deixando reger pelo seu poder. Assim como um filhinho é submisso ao poder da mãe... e é saudável que seja assim num relacionamento de amor e cuidado, para que tudo caminhe bem; igualmente nós temos que nos submeter ao seu poder, ao seu querer, às suas decisões.
Não consigo pensar em nada que eu pudesse fazer entrando em um grupo em que exista um regente, e nesse caso você, sem a consciência primeira de que quem conduz é você, sem a noção clara de que devo me submeter ao seu poder totalmente.
É você quem manda, é você quem decide, é você quem tem o direito de mudar o que quiser e quando quiser, é você que define a música, a nota, quem canta agora ou depois. É você que sabe se está bom ou não, se devemos cantar desse ou daquele outro jeito, é você quem pode, ou seja, é você quem tem poder. Quando você pode (pode sempre!!!) exercer seu poder, tudo tende a ser perfeito porque os desafinos e desajustes tendem a ser mínimos na unidade. Foi isso que você escreveu sobre a banda do Liceu. O regente reinava, como diz a palavra, e eles o atendiam.
Foi isso que eu tentava dizer olhando pra você na missa de São Judas... Use seu poder, você tem um poder enorme sobre nós. Ou melhor dizendo, sua função lhe dá poder sobre todos nós, mas é preciso que nos deixemos ser conduzidos por você. Isso quer dizer que a música tem que começar quando você mandar. Que nós temos que começar a cantar quando você determina. Que temos que seguí-la, atendendo suas orientações, pedidos, por onde e como você for...
Se isso não estiver acontecendo, pode chegar junto da gente e dizer. Pode recordar-nos seu amoroso poder. Alias não é pode, é deve! Aliás, devo também dizer que o seu poder é ainda maior devido ao amor que tem pelo grupo, visível e sensível para quem quiser ver... qualquer momento para estarmos juntos é alegria para você e, sinceramente, como é bom estar entre vocês. Vocês se acompanham na vida a anos, quase vinte... e eu penso, pelo pouco que sei dessa vida, nada nos mantém unidos se não houver um laço forte de amor que dê suporte às diferenças, que faça presente na dor, que faça perseverar no amor.
Se eu entrei lá, a premissa foi aceitar me submeter à você e deixar-me guiar por seu dom, por você. Então você deve fazer com que eu seja meu melhor ali, que eu não atrapalhe você. Entende? Quero que seja inteira comigo se eu estiver somando e igualmente se eu estiver dividindo, porque é assim que deve ser!
Amada amiga, estou muito feliz em estar com você e com vocês! Só gostaria que o desgaste fosse menor, o seu desgaste. Vejo que você tem uma alma leve, que faz um tudo pra aliviar e minimizar qualquer problema e é feliz conosco também. Então não faça cerimônia com seu poder de dizer como quer que seja, se quer alguma coisa, se posso ou podemos ajudar você.
Quando entrei no coral, no primeiro domingo que fui, eu disse a Deus que Ele me encanta todos os dias da minha vida e que eu queria tentar (en)cantar pra Ele também.
Hoje digo isso a você, que me encanta tanto com esse seu jeito doce de ser, sinta-se sempre à vontade para me conduzir nesse anseio de encantar com você, com vocês!
Eu me reconheço feliz e agradecida submissa ao seu dom, ao seu poder...
Deus nos ama através de você!
Gracias por tudo, querida!
Claudia

Agradeço à Claudia o carinho com que se referiu à minha pessoa e debito isso à nossa longa amizade, cultivada nos encontros do Sabadão. Agradeço sobremaneira que me tenha enviado o texto, pois a sua leitura me trouxe uma consciência mais profunda de que é preciso que eu assuma de uma maneira coerente e concreta, aquilo que é esperado da minha função, sem sofrer por ter que dizer, pedir ou reclamar e sem morder a "isca" de ficar desconcertada depois, quando alguém não gosta. Uma vez mais e pela última vez preciso reafirmar, que quando aponto uma falha, corrijo algo ou peço que um instrumento seja abaixado, estou apenas tentando cumprir bem a parte que me cabe, para que o nosso grupo funcione da melhor maneira possível, pois para Deus cada um tem que dar o que há de melhor. Que ninguém tome como implicância pessoal aquilo que deve ser correção implícita de função, que aliás, sempre é feita na maior fraternidade possível.  
Vamos caminhando, dando passos na direção de aperfeiçoarmos aquilo que é possível e lembrando sempre que somos apenas um instrumento de Deus neste mundo. E se a gente compreende que é um instrumento, percebe que não existe diferenças entre nós, percebe que ninguém é melhor nem pior que ninguém,  porque Deus criou a todos com o mesmo amor e de um jeito diferente, porque a gente tem coisas diferentes para dar ao mundo.

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