terça-feira, 30 de agosto de 2011

O essencial é invisível aos olhos

      Exupèry contou a história de um principezinho que vivia em um planeta muito pequeno, onde havia apenas três vulcões que lhe batiam pelo joelho e uma linda flor que era muito sua amiga e com quem ele conversava sempre. Ela sempre havia lhe garantido que era a única rosa do universo.
     Mas aconteceu que o principezinho, depois de andar muito tempo pelas areias, pelas rochas e pela neve, desco­briu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas na direção dos homens.
     E não é que ele encontrou um jardim cheio de rosas, todas iguaizinhas àquela rosa que era sua amiga?
     Ficou muito triste e extremamente infeliz por sentir-se enganado! Até pensou que ela iria ficar bem vermelha se estivesse ali com ele naquele momento... E ficou pensando: "Eu me julgava rico de uma flor sem igual e é apenas uma rosa comum que eu possuo. Uma rosa e três vulcões que me dão pelo joelho, um dos quais extinto para sempre. Isso não faz de mim um príncipe muito grande. . ."
     E, deitado na relva, ele chorou e chorou. Até que ouviu a voz da raposa, dando-lhe bom dia.
     Mais animado, perguntou a ela se podia brincar com ele, porque ele estava muito triste. Mas ela respondeu que não podia brincar com ele, porque ainda não havia sido cativada.
     Como não sabia o que era cativar, o principezinho perguntou a ela o que isso queria dizer.
     E ela respondeu que isso era uma coisa muito esquecida e que signi­ficava “criar laços".
     Ele não entendeu muito bem e então ela explicou melhor:
     - Agora, para mim, você é somente um garoto igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de você. E você não tem também necessidade de mim. Para você, não passo de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se você me cativa, nós teremos necessidade um do outro. Você será para mim único no mundo. E eu serei para você única no mundo...
     Começando a entender, o principezinho lembrou-se de sua flor, começou a querer falar dela, mas a raposa estava muito animada, pensando alto:
     - Se você me cativar, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O seu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Está vendo, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas você tem cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando você tiver me cativado. O trigo, que é dourado, me fará lembrar de você. E eu amarei o barulho do vento no trigo.

     Parou de falar e ficou um bom tempo olhando o principezinho, até pedir: "Por favor... cativa-me!?"
     Mas o principezinho estava com pressa, queria continuar andando para fazer amigos.
     A raposa não se deu por vencida: "A gente só conhece bem as coisas que cativou. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se você quer um amigo, cativa-me!

     Interessando-se, o principe perguntou o que era preciso fazer e ela respondeu:
     - É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Primeiro você se senta um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu vou olhar para você com o canto do olho e você não dirá nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, você se sentará mais perto.
    

No dia seguinte, o principezinho voltou, mas a raposa foi logo dizendo: 
- Teria sido bem melhor se você voltasse à mesma hora. Porque se você vem, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for che­gando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, es­tarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se você vem a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração.. . É preciso ritos."

      - Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a ra­posa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira, então, é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qual­quer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora dele ir embora, a raposa avisou que ia chorar. E prontamente o principezinho respondeu que ele não queria isso, mas que quem tinha insistido para ser cativada era a raposa...
- Quis, disse a raposa.
      - Mas você vai chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, você não sai lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
E pediu que o principezinho fosse rever as rosas e que voltasse depois, que ele lhe daria um segredo de presente.
E o principezinho foi ver as rosas e percebeu que elas não eram nada iguais à sua rosa, porque elas não eram nada ainda... Não tinham sido cativadas e nem cativado ninguém. Viu também que a raposa agora era a única no mundo, porque era sua amiga. Entendeu que a beleza da sua rosa era diferente da beleza das outras rosas, porque tinha sido a ela que ele havia regado, protegido, abrigado, cuidado; com ela, ele conversava e se calava. Era a sua rosa...
E voltou à raposa, para dizer-lhe adeus. E então ela lhe contou o seu segredo:
- Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos. Foi o tempo que você perdeu com a sua rosa que a fez tão importante. Os homens esqueceram essa verdade, mas você não deve esquecê-la. Você se torna eternamente res­ponsável por aquilo que cativa. Você é responsável pela rosa...
      - Eu sou responsável pela minha rosa..., repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.




  
O essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração.
Há beleza, há bondade, que jamais se expressou em canção.
Ela vai muito além da aparência, e a percebem os olhos do amor.
Não se fala, não se canta, mas dá à vida sentido e valor.

                  Todos temos riqueza escondida, que é preciso saber descobrir.
                  Cada gesto e palavra são mensagem a quem quer ouvir.
                  Só no dia em que olharmos o outro, como Deus desde sempre o
                  quis - com ternura e amizade – nosso mundo será mais feliz.

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