sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Noite escura

Em 1578, São João da Cruz escreveu esta linda poesia, que conhecemos musicada pela Ir. Miria Kollings, que fala de seu amor a Deus, dos momentos de intensa escuridão dos sentidos, isto é, momentos em que se sente abandonado por Deus e sem nada sentir.
A canção e letra da Ir. Miria transforma a poesia de São João da Cruz em algo inefável para nós, que amamos cantá-la. Você pode ouvir a música e logo abaixo o poema original



1. Em uma noite escura,
De amor em vivas ânsias inflamada, [Trata-se de alma adiantada na espiritualidade, pois está incendiada do amor a Deus.]
Oh, ditosa ventura!
Saí sem ser notada, [Isto é, saiu de si, sem ser impedida pelos egoísmos]
Já minha casa estando sossegada[vida interior com pleno domínio das pulsões e paixões menores]

2. Na escuridão, segura,
Pela secreta escada, disfarçada,
[A escada mística que sobe rumo a Deus. A escada joanina desdobra-se em 10 degraus]
Oh, ditosa ventura!
Na escuridão, velada,
Já minha casa estando sossegada.


3. Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa,
Sem outra luz nem guia
[A luz da fé e do amor]
Além da que no coração me ardia.

4. Essa luz me guiava,
Com mais clareza que a do meio-dia,
Aonde me esperava
Quem eu bem conhecia, [evoluída, a alma já conhecia a Deus]
Em sítio onde ninguém aparecia. [ centro da alma, o espírito que é também sua parte mais alta]

5. Oh, noite que me guiaste!
Oh, noite mais amável que a alvorada!
Oh, noite que juntaste
Amado com amada,
Amada já no Amado transformada! [Pela união com a Luz a alma se transforma na Luz]

6. Em meu peito florido
Que, inteiro para ele só guardava,
Quedou-se adormecido,
E eu, terna, o regalava,
E dos cedros o leque o refrescava.

7. Da ameia a brisa amena, [Ameia: cada um dos arremates salientes, separados por intervalos regulares, construídos na parte mais alta do castelos, das torres e das muralhas que protegiam as cidades antigas. Vê-se que a alma subiu a escada para encontrar a Divindade. Brisa amena é sopro, símbolo do influxo espiritual de origem celeste. Mensageiro divino, o vento afasta as trevas. Na tradição bíblica, o "sopro de Deus" animou o primeiro homem. No poema, o sopro de Deus faz surgir o ser iluminado (o novo homem que retornou à origem divina).]
Quando eu os seus cabelos afagava,
Com sua mão serena
Em meu colo soprava,
E meus sentidos todos transportava.

8. Esquecida, quedei-me,
O rosto reclinado sobre o Amado; [Esquecida de si, quer dizer, com a atenção concentrada só no Amado]
Tudo cessou. Deixei-me,
Largando meu cuidado
Por entre as açucenas olvidado. [Sua inquietação desapareceu]

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...